Silêncios

Elegia às crianças israelenses mortas no 7 de outubro, barítono e mezzo soprano acompanhados por piano na Ópera de Israel. Um amigo a publicou, uma semana depois de Israel atacar o Hospital Árabe Al-ahli, com centenas de mortes. Em Gaza não há óperas.

Outra amiga, muito querida, pediu aos amigos não judeus que se posicionassem contra o antissemitismo crescente. No dia seguinte, publicou o discurso de Netanyahu, dizendo aos soldados para lembrarem de Amalek.

E outra invocou o sofrimento dos judeus no Holocausto, no mesmo dia em que um ministro israelense chamou os palestinos de animais e prometeu que não teriam água, nem eletricidade, nem comida, nem combustíveis.

Houve, ainda, quem se escandalizasse com a cena de um terrorista matando um cão. Cães merecem viver, crianças também, e a imagem de puxar o gatilho para matar um choca mais que a bomba impessoal que mata trezentos.

Um amigo de longa data disse que é contra todas as guerras. Falar todas é falar de nenhuma.

E têm os que calam. Ou falam da flor que desabrocha, do sol que brilha, da chuva que chove, do vento que venta.

Todos eles têm em comum sobrenomes que informam ancestralidades imemoriais a três mil quilômetros da Jerusalém que consideram sua.

Em 2016, Achille Mbembe escreveu o artigo intitulado A era do humanismo está terminando. Dizia: “Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.” Será um novo mundo, em que ocorrerá a “normalização de um estado social de guerra”, que “leva à dissolução do social”.

Segundo Mbembe, “Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.”

Só não sei se ele foi profético ao iniciar o artigo dizendo que “Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.” Aparentemente, ele estava errado, e, nessa guerra de rapina, os palestinos que sobreviverem serão expulsos de Gaza e largados em lugar nenhum.

Neste 10 de dezembro de 2023, celebram-se 75 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ou nada se celebra, porque a era do humanismo terminou.

E, se há um evento que simboliza esse fim, é o patrocinado por Israel, sob a proteção dos Estados Unidos, a cumplicidade europeia e o beneplácito da grande mídia corporativa ocidental.

No plano dos meus afetos, evoco grandes judeus. Que diria Marx? Que diria Freud? Que diria Einstein? Mas, assim como a era do humanismo, eles estão mortos. Vejo um ou outro judeu vivo denunciar o genocídio, com a coragem de quem é diuturnamente submetido ao ataque cerrado do sionismo.

No mais, só silêncio. Um silêncio resignado, envergonhado, melancólico, uma voz perdida, que engasga para não dizer que a estrela se entrelaça com a cruz gamada.

Entristeço por eles, filhos pródigos da era do humanismo e da Declaração dos Direitos Humanos, eternas vítimas de um passado de holocausto, que não suportam a ideia de verem a História se repetir como tragédia, tendo os seus como algozes.

Mas acima de tudo entristeço pelo povo palestino, pelas pessoas palestinas, que precisam de vozes e recebem silêncios.

 

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