A flor do baobá

Este da foto é um baobá, voltando a florescer após 50 anos, certo? Errado: o baobá não demora 50 anos para florescer e suas flores, muito menores, não se parecem com estas.

Por que, então, tantos amigos que tenho por críticos compartilharam a imagem, criada por inteligência (?) artificial, muitos deles louvando a beleza das flores?

A imagem do falso baobá é mais uma das tantas imagens feiques, de que é exemplo também aquela dos pássaros multicoloridos, com o comentário louvando as maravilhas da natureza. Quase ouço o suspiro de admiração por tão lindas figuras.

A mais recente novidade são belíssimas (sim, tudo é superlativo) crianças bochechudas negras, com sorrisos idênticos, que parecem transmitir um estado de graça coletiva. Uma variante dessas imagens é a do menino, também negro, bochechudo e sorridente, ao lado de uma réplica de plástico perfeita de algum objeto, como um avião ou um pássaro. Vários dos objetos assim produzidos são feitos de garrafas de Coca-Cola (por que será?).

Mas não só de imagens criadas artificialmente vive esse mundo: outra variante muito apreciada é a dos animais que protagonizam cenas insólitas, como aquela do cão que leva na boca uma tábua, que deposita sobre uma valeta, para que outro animal possa atravessá-la. Nesse caso, são inevitáveis os comentários à inteligência dos animais (“quase como um humano!”). Não duvido da inteligência desses animais, muitas vezes subestimada por nós outros, mas cabe lembrar que as cenas são resultado de longo tempo de adestramento, muitas vezes cruel.

O que tudo isso tem em comum é a busca do engajamento, que resulta em monetização: alguém está ganhando dinheiro com os compartilhamentos e visualizações.

Até aí nada de errado, há mercado para isso; o estranho é que gere tantos compartilhamentos entre pessoas inteligentes, que pensei imunes ao estelionato intelectual, mesmo porque costumam ser atentas às feique nius da política.

Talvez seu senso crítico seja unidimensional, limitando-se à esfera estritamente política, sem alcançar a estética, como se, nesses tempos de inteligência artificial, não fosse fundamental aprender a postar-se com cautela diante da profusão de simulacros.

Ou, talvez, como aconteceu numa postagem em que, depois de alertada sobre a falsa flor de baobá, a pessoa respondeu “vou deixar, porque achei bonitinha”, as pessoas estejam se rendendo à estética da flor de plástico.

Mas nesse caso conviria legendar com algo do tipo “sei que é falsa, mas achei tão bonitinha”. Melhor mau gosto que capacidade crítica reduzida.

Se você chegou até aqui, tenho duas lembranças:

1) Há 60 anos foi implantada no Brasil uma ditadura assassina, fato que não deve nunca ser escondido.

2) Hoje está acontecendo um genocídio na Palestina, praticado por Israel e cinicamente apoiado por Estados Unidos e seus lacaios europeus.

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2 respostas

  1. Avatar de Adriana Jaeger
    Adriana Jaeger

    Inteligente e instigante!!

  2. Avatar de Noili Demaman
    Noili Demaman

    Boa a estratégia para conduzir leitor.

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