A figueira do IAPI

Sinto saudade das caminhadas no Alim Pedro. Não esqueci de quando vi o amanhecer no IAPI e quando desci os vinte degraus, que eram 22. Havia esquecido da voz, mas a busca no Bissexto me fez lembrar.

Refaço na memória as caminhadas, e reduzo o passo para ver as jataís saindo do oco de uma timbaúva, subo as escadas correndo e paro para colher pitangas (podiam ser também araçás ou cerejas), saindo, depois, com o bolso carregado de sementes para enterrar.

Por um tempo, fazia uma parada obrigatória, para ver a jovem figueira abraçar um enorme eucalipto, que devia ter a idade do bairro. Escrevi então que, quando vejo a figueirinha em luta com o gigante australiano, imagino-a como a nossa pobre pátria, em alegórica resistência contra o império que a tudo engole.

E completei, numa frase que misturava esperança e temor: preciso ver a figueira tomar corpo, torcer para que não a arranquem e esperar o dia em que envolva raízes e tronco do eucalipto, cresça em sua volta e ao final lhe diga que este é o seu lugar.

Isso foi há cinco anos, mais ou menos na época em que podaram as árvores do parque, cortando-lhes os galhos mais baixos – para nossa segurança! –, e ninguém mais pôde saborear as frutinhas nativas, que se tornaram inalcançáveis.

Desde então, muita coisa aconteceu, veio a pandemia, minhas idas ao Alim Pedro diminuíram e, por fim, me mudei de bairro, depois de cidade, não mais retornando.

Mas não foi este o motivo para não ter vindo um segundo capítulo para a história da figueira, porque um dia fui matar a saudade, e parei em frente ao mesmo eucalipto. Estava sem celular: não tirei foto; eram dias de pouca inspiração, não escrevi texto.

Escrevo agora: parei em frente ao eucalipto, e da figueirinha restavam vestígios: a raiz extirpada no solo, os braços sem o corpo. Morreu de morte matada, esquartejada como Tiradentes.

Azar meu, que a tinha visto em alegórica resistência contra o império; meu temor não era infundado, e os guardiões da ordem do parque deram vitória ao eucalipto.

Se deixei passar o tempo para escrever este segundo e trágico capítulo, ao menos isso me oportuniza atualizar a parábola: deixo de lado o império, que segue a nos dominar, e invoco a fúria da natureza, vingando-se do que a ela fazemos.

O triste fim da figueirinha que me encantou, vista como inço diante do majestoso eucalipto, pode significar apenas a incompreensão diante da importância de preservação da flora nativa. É tão pouco diante das centenas de árvores derrubadas no Parque da Harmonia para a construção de um estacionamento, nada diante das matas ciliares e cabeceiras derrubadas para darem lugar a monoculturas, mas reproduz no micro o desprezo pela natureza e pela biodiversidade local.

Mas a resposta vem, e tivemos há pouco uma mostra disso.

No mais, o episódio permanecerá como uma das lembranças do IAPI. E, se um dia fizer a crônica desse tempo tenebroso, talvez conte a parábola da figueirinha que se atreveu a abraçar o eucalipto.

(Os tempos me pedem que também faça outra parábola. Nela, a morte da figueira representa o holocausto palestino, vítima do sionismo criminoso, sob patrocínio do poder imperial. Só que o final será outro, e a Palestina resistirá.)


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